É possível existir geração de caixa e prejuízo ao mesmo tempo? Entenda o que isso significa na gestão financeira

Qual profissional de finanças não passou pela situação de analisar que houve geração de lucros em determinado período e, no entanto, fluxos de caixa positivo?! Outro efeito inverso é também comum: principalmente em momentos de crise, é possível nos depararmos com apuração de prejuízos contábeis e, no entanto, geração positiva de caixa! Isso seria normal? Seria bom? O que isso significa?

 

Ao analisar o desempenho das empresas ao longo desses últimos períodos de crise no Brasil, esse efeito fica bastante evidente. Considere por exemplo o das Lojas Marisa no ano de 2015, por exemplo – empresa atuante no segmento de comércio varejista de vestuário. A empresa nesse ano apresentou prejuízos e, por outro lado, forte geração positiva de caixa! Coisa bastante similar aconteceu no fechamento de 2016 com a empresa JSL S.A. (empresa de serviços, no segmento de logística integrada). Assim como esses, outros incontáveis casos podem ser identificados no período, de forma que a geração de caixa e lucros são opostas. E isso não está restrito a momentos de crise!! Pode acontecer a qualquer momento. E por quê?

 

Antes de tomar atitudes drásticas – como atribuição de culpas, demissões, entre outros – é preciso entender por quê isso pode acontecer na realidade da gestão financeira dos negócios e no fechamento contábil.

 

Para tanto, antes de mais nada, precisamos entender que LUCRO e CAIXA, quando olhando dentro de um mesmo espectro de tempo – por exemplo, um ano, ou um trimestre – não são a mesma coisa!! Em espaços curtos de tempo, a geração de lucro nunca será igual à geração de caixa!

 

Para compreender a relação entre lucro e caixa, vamos considerar alguns exemplos e cenários.

 

Gestão financeira: avaliando cenários

 

Imaginemos o seguinte cenário em um comércio. Suponha que a empresa fez uma venda no mês por R$ 100, referente a uma mercadoria pela qual pagou R$ 70. Seu lucro, portanto, foi de R$ 30, certo? Agora vamos refletir: será que o lucro se reverteu, necessariamente, em entrada de caixa no mesmo mês?

 

Não necessariamente. Se a venda foi feita a prazo, o dinheiro não entrou no caixa da empresa. Veja só: a venda feita pela empresa de fato gerou riqueza de R$ 30 nesse período. No entanto, a empresa permitiu que seu cliente demorasse para pagar, de forma que todos os R$70 de custo da mercadoria foram pagos pela empresa ao seu fornecedor dentro do mês (pois os pagamentos nesse exemplo foram à vista), mas ela ainda não recebeu do cliente!!

 

Conclusão: tem-se lucro positivo de R$30, e fluxo de caixa negativo em R$70.

 

A geração de lucro segue o regime de competência da contabilidade e tem o objetivo, colocando de forma simplificada, de apurar a receitas de vendas realizadas dentro daquele período de tempo. Sendo assim, caso a empresa tenha bastantes receitas no período, seu lucro tenderá a ser elevado. Mas não necessariamente esse lucro será revertido em caixa nesse mesmo período, em virtude desses diferentes prazos de pagamento, recebimento e estocagem.

 

Agora pensemos na outra situação: caso as vendas fossem à vista – e portanto a empresa teria toda a entrada de caixa nesse período – porém os pagamentos a fornecedores fosse à prazo e, portanto, a empresa não teria nenhum desembolso de caixa no período. Nessa situação, o que aconteceria seria exatamente o inverso! A empresa teria mais fluxo de caixa do que lucros gerados, pois os custos (que diminuem seus lucros no período) ainda não teriam sido desembolsados e, portanto, a empresa não teria tido saídas de caixa. Nessa situação, ela ainda estaria devendo para seu fornecedor. O outro extremo consiste, portanto, na existência de fluxos de caixa superiores aos lucros gerados no período.

 

 

E quando a empresa tem prejuízos, mas fluxo de caixa positivo?

 

Na análise feita pela área financeira, um outro cenário que pode ocorrer é uma empresa que tenha tido um desempenho de vendas muito ruim no período, levando inclusive a cenários de prejuízos, mas que apresente fluxo de caixa no mesmo período positivo.

 

A explicação para isso podem ser de diversas naturezas. Vamos considerar um exemplo, baseado em casos de empresas varejistas que fazem vendas financiadas a prazo. Exemplos dessas empresas são Casas Bahia, Lojas Marisa, Lojas Renner, entre outras diversas. Nesse caso, a empresa faz diversas vendas com prazos longos, de forma que as suas receitas irão se converter em caixa nos vários meses por vir, paulatinamente.

 

Tendo em vista esse contexto, suponha que em determinado mês as lojas físicas tenham um desempenho ruim, com baixas vendas. É bastante provável que nesse mês a empresa tenha prejuízos. Será que isso necessariamente será revertido em fluxo de caixa também negativo no mesmo mês? Não necessariamente!! Afinal, a empresa conta com uma grande carteira de vendas passadas que ainda não foram recebidas, e que irão “pingando” na conta da empresa aos poucos! Dessa forma, talvez o caixa desse mês se torne positivo em virtude das vendas parceladas que foram feitas no passado, e que estão entrando no caixa apenas agora. Situação, portanto: prejuízos, porém com fluxos de caixa positivo. De uma forma simplificada, isso foi parte do que aconteceu com o caso das Lojas Marisa no ano de 2015, por exemplo.

 

O que podemos concluir é que esse descasamento entre lucro e caixa sempre vai acontecer dentro de um mesmo período de tempo. Isso porque o lucro segue um regime de competência, enquanto o caixa segue o chamado regime de caixa. E esses diferentes prazos – de pagamento, recebimento e estocagem – são, essencialmente, o que fazem com que, no curto  prazo, o lucro da empresa seja diferente de seu fluxo de caixa.

 

Compreender essa dinâmica, suas causas e origens, é uma das principais atividades na gestão financeira das empresas. Tanto com o objetivo de gerenciar o negócio buscando maximizar ganhos (lucros), assim como buscando gerenciar os riscos derivados da gestão de caixa no curto prazo. {{cta(‘decf06f8-d385-4762-b0fe-155d250b505d’)}}